Do Caderninho à Inteligência Artificial: Como a Linha Tex está revolucionando as Oficinas de Costura no Seridó

O Seridó do Rio Grande do Norte sempre foi conhecido pelos seus encantos, belas paisagens, culinária e hospitalidade. Mas, ao longo dos anos, uma outra vocação vem sendo descoberta e fortalecida: o empreendedorismo construído através das oficinas de costura. Por toda a região, já são mais de 265 fábricas espalhadas em diferentes cidades. E é esse som, o ritmo das máquinas, que tem dado pulso à economia local. Contudo, por trás das linhas e agulhas, a gestão ainda analógica desse processo limita seu crescimento. Durante anos, o controle das oficinas de costura tem sido refém de cadernos de anotações e quadros brancos, apagados ao fim de cada turno, tudo manual, sem tanta eficiência.
Foi nesse cenário, na cidade de Acari, tropeçando entre retalhos e linhas na casa de sua avó, Dona Maria da Natividade, que Lucas Gabriel Guedes Limeira, de 22 anos, vislumbrou uma revolução. O jovem, que iniciou sua trajetória técnica no IFRN de Parelhas em 2019 e seguiu para o curso de Sistemas para Internet, em Currais Novos, em 2022, uniu a herança familiar das tias costureiras com a expertise em TI. Ele transformou o sentimento empírico das oficinas em algoritmos, criando a Linha Tex, ferramenta que promete modernizar a rotina das oficinas de costura.
“Minhas tias sempre trabalharam nas oficinas. Cresci numa casa cheia de máquinas de costura. Em nossas conversas, elas sempre relatavam as dificuldades que viviam nas fábricas, na rotina. Percebi que essa problemática poderia ser levada para a academia, desenvolvendo um projeto para que essa linha de produção pudesse ter mais eficiência”, contou.
O projeto nem sempre teve o foco atual. Inicialmente batizado de Acaritex, a ideia mirava o controle de insumos, como agulhas e linhas. Contudo, visitas técnicas a fábricas em Acari e Cerro Corá revelaram uma outra realidade. O desperdício de material existia, mas parecia secundário diante do tempo que eles perdiam em todos os processos, muitas vezes de forma imperceptível. “O real inimigo era a falta de eficiência produtiva”, explicou.

Assim nasceu, em setembro de 2023, a startup Linha Tex, com foco na gestão em tempo real e na anáise do tempo aplicada, transformando dados brutos em lucro. A precisão do sistema foi posta à prova na fábrica Jana Ju Jeans, onde a ferramenta vem sendo testada. Uma costureira de alta performance, habituada a manter 95% de eficiência, viu seu rendimento despencar para 80%. Em uma gestão tradicional baseada em cadernos, ela seria a única responsabilizada. No entanto, a inteligência artificial da Linha Tex sinalizou uma “inconsistência no fluxo de peças”: o problema não era a costureira, mas o operador anterior da linha, que não estava repassando o material no tempo adequado.
Essa tecnologia traz justiça ao chão de fábrica, evitando punições indevidas e permitindo correções cirúrgicas no fluxo de trabalho. Como destaca Abel Bezerra, gestor da Jana Ju, a clareza dos dados é um diferencial sem volta para quem utiliza a plataforma
“O sistema gera um relatório final que eu não conseguiria fazer com tanta precisão e com informações tão exatas. É algo fantástico para o acompanhamento em tempo real, mesmo quando não estou fisicamente na oficina. Eu posso receber pelo WhatsApp relatórios imediatos e notificações sobre o que pode ser corrigido em tempo real, identificando problemas que antes levaríamos uma tarde ou até um dia inteiro para detectar. Posso até chamar meu colaborador para entender o que pode estar acontecendo e corrigir”, contou Abel Bezerra.
Ao contrário do estigma de que a tecnologia desumaniza, no Seridó ela tem sido uma ferramenta de valorização. Com a medição precisa, o monitoramento digital permite implementar políticas de gratificação financeira ou a “liberação antecipada” do turno: se a meta é atingida com eficiência, o colaborador ganha tempo para si.
Diogo Bezerra, secretário de Desenvolvimento Econômico de Acari, explica a matemática da sobrevivência: no setor têxtil, 70% de eficiência serve apenas para pagar as contas. A partir dos 80%, a empresa começa a “voar”. Um incremento de apenas 5% na produtividade, viabilizado pela correção de gargalos identificados por essa startup, pode ser o que define a prosperidade de uma oficina. Em Acari, onde o setor faz circular R$ 1,5 milhão por mês através de 13 fábricas regulares e gera mais de 500 empregos diretos e indiretos, essa margem é vital para sustentar centenas de famílias.
A fábrica Soles, também em Acari, passará a experimentar a startup. A gestora, Olívia Soares disse ver no projeto do jovem Lucas uma esperança para a região. “O sistema dele traz em instantes um resultado que antes demandava horas de planilhas manuais. Isso é exatamente o que buscamos”, contou.
Conversa com as tias deu ideia para início da plataforma
A Linha Tex encerra a era do “achismo” na costura do Seridó. Ao transformar o fluxo de produção em dados, a startup criada por Lucas Gabriel não apenas otimiza o lucro, mas protege o ecossistema têxtil de Acari e prepara sua expansão para estados como Paraíba e Pernambuco. Financiamentos, através de editais, têm sido buscados para aprimorar e fortalecer a ideia.
Mara Guedes, tia de Lucas, que sempre relatava suas dificuldades e acabou inspirando o sobrinho a criar a ferramenta, abriu seu próprio ateliê, deixou de ser funcionária e agora empreende. Ela disse estar orgulhosa e acredita que aquelas conversas à mesa poderão representar um divisor de águas para o setor das oficinas de costura.
“Fico feliz de saber que aquelas conversas do almoço em família não foram em vão. Foi ali o primeiro laboratório. As dúvidas que ele tinha nas madrugadas e as mensagens perguntando sobre coisas técnicas do dia a dia da fábrica tinham um propósito. Hoje deixei de ser funcionária e abri meu ateliê, a Atalaia. Isso também me motivou, e fico orgulhosa de usar a ferramenta no meu pequeno negócio. Outro detalhe é que o mecanismo funciona tanto em grandes empresas quanto em pequenas, como a minha”, explicou, entusiasmada.
Olhando para o futuro, Lucas projeta que sua ferramenta chegará a patamares ainda maiores. “Eu sinto um orgulho muito grande de ver o que a Linha Tex está se tornando. Para mim, é um marco pessoal, pois sempre vi minha família trabalhando em fábricas e convivendo com esses problemas. Meu maior sonho é que o sistema leve transparência para a produção, permitindo também uma valorização social real do funcionário”, finalizou.
Em um mercado onde o tempo é a moeda mais valiosa, a tecnologia não serve para substituir o humano, mas para garantir que cada minuto do seu esforço seja finalmente reconhecido e recompensado.








